Famílias do Cacau Pirêra recebem atendimento da Defensoria sobre fornecimento de energia

Do outro lado da Ponte Rio Negro, no distrito de Cacau Pirêra, moradores da comunidade Nova Veneza convivem com o medo de sair do local onde vivem há anos. Recentemente, a concessionária Âmbar Energia comunicou a instalação de medidores aéreos na região, desconsiderando a realidade destas famílias, que vivem em situação de vulnerabilidade social e, por isso, temem não conseguir arcar com os custos da energia elétrica e precisar deixar suas casas.

A insegurança desse novo cenário levou os moradores a buscarem o apoio da Defensoria Pública do Amazonas (DPAM), por meio da unidade de Interesses Coletivos, que realizou uma visita técnica nesta terça-feira (29/9) às residências da comunidade e debateu com a população os possíveis efeitos da medida sobre quem vive na área.

A partir do que foi observado e apresentado durante a visita, a Defensoria identificou a necessidade de que a instalação dos equipamentos seja acompanhada de ações de natureza social, considerando as condições de vulnerabilidade, conforme explica o defensor público e titular da Defensoria Pública de Interesses Coletivos (DPEIC), Carlos Almeida.

“As imagens que nós observamos são dramáticas e apontam para o abandono social e a necessidade de integração. Chegamos à conclusão de que, mediante a ameaça da instalação dos medidores, fazendo com que a vida dos moradores fique mais difícil, seja necessária a realização de uma audiência pública aqui na comunidade para evitar um desamparo desses moradores”, destacou.

Outro ponto levantado pelo defensor é a necessidade de a concessionária de energia considerar as particularidades da região amazônica, que apresentou altas temperaturas no mês de setembro. Nesse contexto, o uso de aparelhos de climatização em algumas residências não representa apenas uma questão de conforto, mas de necessidade.

“A tarifa social não considera, por exemplo, a questão do conforto térmico. São várias as casas que possuem ar-condicionado, não porque acham adequado, mas porque é necessário. Nós estamos na Amazônia, em um cenário de calor extremo, e isso precisa ser levado em consideração”, explicou.

Gentrificação: o isolamento de quem vive na linha da pobreza

Na comunidade Nova Veneza, o cenário é formado por palafitas, um modelo de habitação erguido por pilares ou estacas para manter o piso elevado acima da água e evitar alagações. Nas ruas, o asfalto e a infraestrutura básica para viver com dignidade nunca chegaram, fazendo com que os moradores andem em meio ao barro e à lama.

Segundo os relatos da comunidade, a maioria vive com menos de R$ 300,00 e não possui condições de pagar uma conta de energia alta com a instalação dos medidores aéreos. Muitos desabafaram que, caso a instalação siga adiante, terão que se mudar para uma região ainda mais afastada.

É o que pensa também a moradora Izabel Mura, 48, que atua como líder comunitária na região. Para ela, a visita representou um avanço nas demandas solicitadas pelos comunitários.

“Essa visita da Defensoria teve um olhar solidário para quem mora aqui, algo que o Poder Público nunca teve com a gente. Somos afetados com a enchente, com a vazante, não temos postes de energia, nossa água não é de qualidade e vivemos de auxílio. Nosso apelo não é para não pagar conta de energia, mas para que isso aconteça de uma forma justa para a gente, porque vamos precisar sair daqui se o valor for muito alto”, ressaltou.

A esse processo relatado pela moradora se dá o nome de gentrificação, que ocorre a partir de uma transformação urbana em que um bairro ou região passa por mudanças na infraestrutura e no custo de vida, mudando o padrão da área e deslocando os antigos moradores para zonas mais periféricas e baratas.

Para a defensora pública Camila Campos, que também acompanhou a visita técnica, a proposta da Defensoria é promover uma articulação envolvendo a concessionária de energia e o município de Iranduba, buscando construir alternativas que garantam o acesso à energia elétrica sem ampliar a vulnerabilidade social dos moradores.

“Aqui no Cacau Pirêra, vemos esse movimento da gentrificação com os moradores considerando ir embora, porque não vão conseguir pagar uma conta de energia alta com o valor que recebem mensalmente. O objetivo da Defensoria, a partir de agora, é realizar uma audiência pública na comunidade e identificar quais medidas de proteção e assistência social podem ser aplicadas aqui”, concluiu.

Texto: Camila Andrade
Fotos: Lucas Silva/DPAM

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